Crítica | Coringa (Joker)

Uma nova versão de um dos maiores e mais icônicos vilões da cultura pop não poderia chegar aos cinemas com pouco barulho e sem grandes polêmicas. Dirigido por Todd Phillips e interpretado, como de praxe, de maneira memorável pelo ator Joaquin Phoenix (O Mestre), Coringa (Joker) é um grande filme e que faz jus a todo o ‘barulho’ que o acompanha. Para o bem ou para o mal.

Numa trama que constrói uma espécie de história de origem do personagem, somos levados até a Gotham City dos anos 80 que enfrenta toda a sorte de problemas, até mesmo uma infestação de ratos gigantes. Em meio a uma sociedade despedaçada e a beira do colapso, conhecemos então Arthur Fleck (num esquálido e assustador Joca Pássaro de Fogo). Trabalhando como palhaço durante o dia, ele tenta se preparar para se tornar um grande comediante de stand-up enquanto lida com seus próprios problemas pessoais (e mentais também).

A excelente atuação de Joaquin Phoenix é, sem dúvidas, o ponto alto do filme. É visível o quanto o ator se entregou ao personagem não apenas fisicamente, mas até mesmo na forma como construiu uma personalidade totalmente doentia. As suas risadas descompassadas servem muito a esse propósito, principalmente quando se repara não só do que ele está rindo, mas sim do que ele não ri e não esboça sentimentos ou comportamentos humanos.

Todd Phillips apresenta em seu filme um homem com sérios transtornos e problemas familiares lutando para se integrar a uma sociedade que parece não ter espaço para pessoas como ele. Existe um empenho em encaixar as consequências e atos caóticos com motivos mais claros na história. Como se tudo o estivesse levando a um caminho. É o que traz ao filme um senso de coesão e coerência, e este é um dos maiores perigos que o “Coringa (Joker)” pode apresentar para cabecinhas menos atentas.

Toda a parte artística do filme funciona muito bem. O figurino que o diferencia dos outros Coringas do cinema o suficiente para torná-lo realmente um novo ‘Joker‘, sem deixar de trazer a essência do personagem, ajuda a não só construir o vilão, mas também a contar a sua história. Se no início o que vemos são cores que representam “doença”, à medida que o filme avança percebemos que até mesmo a iluminação e os closes escolhidos em determinadas cenas nos mostram um despertar de um novo e eminente perigo. O filho e o pai do caos.

Outro ponto de destaque é a trilha sonora composta por Hildur Guðnadóttir (óbvio que copiei e colei) – que trabalhou na série da HBO “Chernobyl” e no filme “Sicario: Dia do Soldado” – que é bastante acertada. Som, cores, elenco e fotografia, tudo caminha em conjunção dando aquele ar de “obra de arte” e distanciando, um pouco, dos demais filmes que envolvem o universo dos quadrinhos.

Dificilmente “Coringa (Joker)” será um filme unânime, por mais que seja bem produzido e tenha uma atuação de destaque, é uma obra que irá levantar debates e discussões (algumas exageradas, é verdade). E se uma obra de arte é capaz de fazer isso, sem dúvidas, já vale o seu tempo.

Só que não dá pra relevar que, em meio a sua história, existem alguns discursos preocupantes e que poderão fazer algumas pessoas amarem o filme por razões perigosas. Para aqueles que, ao contrário do personagem principal, conseguem distinguir bem o que é real do que é ficção, “Joker” é sim um filme que vale o barulho que vem criando, mesmo que, no final, ele caminhe para um beco escuro e perigoso.


Classif.: 4 de 5

Coringa (Joker)
Ano de produção: 2019
Duração: 2h 2min
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Josh Pais, Brett Cullen, Glenn Flesher, Bill Campo e Marc Maron.
Estúdios: DC Comics, DC Entertainment, Joint Effort, Warner Bros.
Distribuição: Warner Bros.

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Author: Marcio Melo

Analista de Sistemas, amante da sétima arte desde os tempos imemoriais e com muito sangue nerd fervilhando em veias hipertensas, fundou o Porra, Man! com o intuito de comentar sobre cinema de forma descomplicada e fácil de entender. Nas horas vagas torce prum time que nunca vence e mata monstros que não existem.

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4 Comments

  1. [..]”fazer algumas pessoas amarem o filme por razões perigosas”
    Isso faz parte do cinema, man. Basta lembrar de filmes como Laranja Mecânica e Clube da Luta. Não dá pra condenar o filme por causa de interpretações erradas. Mas eu acho que o filme tem problemas em apresentar a “mensagem” que ele quer passar. Faz parte.

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    • Não acho que dá pra comparar com esses filmes que foram feitos em uma época bastante diferente da atual de igual pra igual.

      E a mensagem, como você bem falou, que ele passa é perigosa não por ela mesma, mas sim como o filme tenta criar ‘coerência’ e ‘justificativas’ para um monte de coisa que sim, acho que são um pouco complicadas.

      De qualquer forma, achei um ótimo filme

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  2. Realmente, esse filme pode ser perigoso para cabecinhas menos atentas… assim como vários outros filmes, jogos e até livros. O problema não é o conteúdo propriamente dito e sim o que alguém perturbado pode fazer com isso, como se fosse uma inspiração.

    Bela análise. Deu pra abordar vários detalhes importantes do filme, que não são poucos. Não sabia que a trilha sonora é do mesmo cara (não vou nem copiar) que fez a de Chernobyl e Sicario. Agora deu para entender pq é tão boa.

    Gostei muito de Joker. Daqueles filmes diferentes, envolventes e perturbadores. Colocaria ele em um trio com Logan e The Dark Knight como os meus preferidos baseados em personagens dos quadrinhos.

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    • Sim, a trilha é fantástica não é a toa. Sim. Existem outros filmes que seguem o mesmo caminho, é muito mais um ponto de atenção do que uma crítica essa questão do filme “preocupar”

      Ele vai estar no meu top 10 de melhores de 2019

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