Diretamente de Curitiba, nosso correspondente Diogo Berni comenta sobre os filmes que está assistindo no V Olhar de Cinema

Passos (Kroki)

De Karolina Zaleszczuk, Polônia, 2015.

Por vezes um empurrão na vida pode ser deveras exagerado e consequentemente desastroso. O que acontece nesta obra polonesa é mais ou menos isso, mas vamos aos fatos, pois com eles meus argumentos serão desnecessários, ou não. Crítico de cinema (deve) ser frio como Varsóvia, a capital da Polônia. Eu, particularmente não consigo. Para rolar o tesão em escrever tenho que ter uma brecha emocional naquilo que me proponho a escrever, e por isso me envolvo com todos os meus textos. Se querer um texto “racional”, que procure outro lugar, pois aqui nesse as coisas são dilatantes e viscerais, ou ao menos tentamos para que isso ocorra, já que intuição e vontade de escrever não aparecem todo dia. Pois bem, voltemos então a obra polaca e diagnosticamos de cara um conflito entre mãe e filha adolescente. Mãe esta ainda nova e caixa de um mercado. A filha vai encher a mãe no trabalho querendo comprar algumas besteiras por estar enojada de comida congelada todo santo dia. Na cena vemos o primeiro conflito e arco inicial da trama: uma adolescente querendo ser adulta e uma mãe se fazendo de adolescente. Diante do primeiro conflito a obra fílmica se compromete ao desenvolvimento de uma das personagens, no caso a adolescente. Garota na casa dos treze, quatorze, quinze ou talvez dezesseis anos, que de início pensei que tratava-se de uma homossexual pela forma que jogava basquete com seus amigos, mas após uma olhadela mais profunda percebo que sua atitude em quadra se deve a mudança dos seus hormônios. Concreto e visto isso , adentramos na mudança pisca da adolescente, que começa a invejar uma vizinha sua com um pouco mais de idade, talvez, que sai com um cara com um super carro legal. O arco narrativo da trama já está definido, já que no decorrer da obra vemos a garota cada vez mais se aproximar da sua vizinha e consequentemente se esquivar da sua mãe adolescente. Eis que acontece o inevitável (sou spoiler também…): um bruto estupro por parte do namorado da sua vizinha que ela começa a desejar, mas na hora o cara não é nada delicado. Dessa forma frustrante e castigante a menina vira mulher, de modo que agora consegue compreender as atitudes da sua mãe, e por isso, volta a ter uma boa relação com sua genitora. A mensagem do filme é bem abrupta no sentido da mudança de fases da vida da garota, mostrando de quem com ferro fere, as vezes não é ferido, assim como na vida.

IRRLA3UFER

Dirigido e roteirizado por Moritz Draheim , Alemanha, 2015, sendo sua estreia na América latina.

Tinha um puta trauma quando meu pai falava que era da “turma do mau“. Garoto e católico com primeira comunhão e tudo, não entendia quando ele falava isso para mim com o riso nas bochechas cobertas por sua barba. Já minha mãe dizia, todo dia, que era da “turma do bem“. Aos oito anos de idade criei uma imagem de certo monstro por parte do meu pai por ele ser da turma do mau. Na adolescência meus pais se separaram e fiquei mais distante ainda dele, de modo que ele já morreu e não conseguimos nos aproximar da forma que poderíamos, ou não poderíamos mesmo, vai saber, fato é que hoje sinto uma puta falta dele e devo ser mais da turma do mau do que a do bem. Metáforas a parte esse filme fez indagar tais questões da minha formação como humano; bom e mau, o que na real todos somos: complexos por natureza. A minoria sabe disso, mas somos as duas coisas; podemos fazer coisas extraordinárias e ordinárias quase que ao mesmo tempo, alias, as pessoas são interessantes por isso mesmo: por ser “Mané” e “Pelé”. Todavia voltando ao forte e visceral curta alemão que vi no V Olhar de Cinema em Curitiba, tem-se como personagem principal um adolescente que trampava em um Lava-Jato, e como antagonista tínhamos um amigo seu. Ao primeiro olhar classificaríamos eles como o primeiro como “do bem” e o segundo como um super gordo “do mau”, porém como carregamos conosco tais naturezas opostas, o curta nos dribla também, de modo que não conseguimos mais ver quem é vilão e quem é mocinho na estória do curta. Entra na trama uma terceira personagem: uma garota viciada em heroína e namorada do gordão perverso, e essa muda toda a lógica dos destinos de quem é mau e quem é bom. Ou seja: não temos o menor poder sobre nossas naturezas, o que podemos no máximo é tentar interpretá-las ou manipulá-las, mas que as duas naturezas estão lá: isso estão, sem a menor dúvida, em qualquer cidadão que seja.

O Homem Roubado

De Mathias Pinero, Argentina, 2016.

Fui pelo nome e me dei mau. Festival de cinema é assim mesmo: uma roleta russa. Achei o longa muito confuso e o primeiro que me deparei em preto e branco, o que causou-me estranhamento, já que não tinha na sinopse tal opção estilística. Mas beleza, tentei assim mesmo adentrar na obra inusitada, mas não deu liga. O que vi foi um bando de larápios que iam aos museus e bibliotecas de Buenos Aires para surrupiar obras antigas a fim de revender para colecionadores, mas nem isso o filme mostra: a revenda. Desse modo sai da sala falando em alto tom: Mas que bosta, e muitos concordaram comigo. A obra fazia alusão a um determinado livro importante para os portenhos, mas a mutação para a sétima arte ficou devendo, e muito, a meu ver.

O Céu Treme e a Terra Tem Medo e Os Olhos Não São Irmãos

De Ben Rivers, Marrocos/Reino Unido, 2016.

Até agora foi o filme com o título mais longo e o mais louco que assisti do festival de Curitiba. A fotografia é de um esplendor que já vale o ingresso somente por ela. A obra é rodada integralmente no deserto marroquino com a ida de uma equipe rodar um suposto filme de um diretor excêntrico.Acontece que após alguns dias de filmagem o diretor se aventura nas trilhas com um estranho da região e é golpeado na cabeça. Daí, sugere-se que aconteça outro filme dentro do filme que estaríamos vendo, ou seja, é uma bela deixa para especulações diversas. O diretor é raptado e feito de “homem-lata dançarino” dos nativos para uma possível revenda nos Marrocos.Vale pela fotografia e pelos pensamentos que surgem a posteriori; uma verdadeira viagem em todos os sentidos possíveis e impossíveis também, que só nos é ofertado quando adentramos em um festival internacional de cinema.

 

O Estranho Caso de Ezequiel

De Guto Parente, Brasil, 2016.

Com zero grau de temperatura e cinquenta na cabeça serei tinhoso em resenhar esse filme, pois até agora não vi nenhum filho de quenga especializado a cometer tal ação. De inicio abre-se o filme com um versículo bíblico de Ezequiel. Na vida real, ou melhor, na trama o Ezequiel é um homem que passa por um momento difícil com a perda da sua esposa, alias bota difícil nisso. Ele ouve vozes, fuma maconha, se recolhe em sua casa para compreender a ida de sua amada para o além. O máximo que Ezequiel faz é comprar frutas no mercado ao lado para acalmar sua mente, mas isso não adianta. Ezequiel, então, desiste de esquecer sua esposa e busca ela da sua maneira, onde ela estivesse. Se ela não pode estar ali, ele primeiro faz com que ela estivesse, ou acreditasse que estaria, e depois, ele vai onde ela estaria; lugar esse que não fica nítido, mas ele vai lá e fica. Lógico que, alias se existe uma coisa no filme que não existe é a lógica, mas é evidente que o filme discute o tema vida pós-morte, e mais, o diretor coloca elementos psicodélicos que influenciariam na concepção do entendimento da vida pós-morte. Quando, na segunda parte do filme, Ezequiel já se encontra há 237 anos depois em um planeta distante com sua esposa e o ET que a todo momento estava com ele; ET este que só fui descobrir que era um ET nos créditos, pois pra mim era a forma material que Ezequiel se encontrava em seu estado de loucura, misturando lógica ou “deslógica”. O filme concorre ao premio de melhor longa nacional no V Olhar de Cinema em Curitiba, e espero que leve, sensacional !

Ator Martinez

De Nathan Silver, EUA, 2015.

O diretor é figura carimbada no Olhar de Cinema. Desta vez ele vem pra desmistificar o limite entre a ficção e o documentário. A obra não deixa de ter sua marca registrada: a tragicomédia, ou seja, por situações tão absurdas que surgem, o humor acaba dando as graças para situações tão estapafúrdias. O protagonista é um sujeito que conserta computadores e resolve chamar dois cineastas para fazer um filme seu. Todavia quando os diretores pedem para que ele se comporte como um ator, como chorar, por exemplo, ele não consegue. Ano passado Nathan Silver teve uma amostra só de seus filmes no Olhar de Cinema, mas no deste ano só rolou esse, deu para matar as saudades do diretor criativo que ele é.

A Última Terra (La Ultima Tiera)

Do excelente e sensível Pablo Lamar, Holanda/Paraguai, 2016.

Este foi o único filme em que não escutei diálogo algum do inicio ao fim no V Olhar de Cinema em Curitiba, e talvez por isso, tenha sido um dos melhores e aplaudido de pé pelos transeuntes críticos de cinema de todas partes do Brasil e América Latina, e a população curitibana em uma sala lotada. O máximo que tem-se de comunicação verbal aparece logo nos primeiros minutos do longa metragem, e tampouco também não são vozes, mas sim grunhidos de dor e respirações ofuscadas pela falta de pouca vida que ainda lhe restava por pouco espaço de tempo. Ou seja: de quem estava indo dessa pra melhor (ou pior, vai saber do principal mistério nosso: o outro lado). A personagem em fase de ir-se é a uma mulher idosa que vive cercada de um mato selvagem e silencioso em uma selva paraguaia com seu esposo, também homem de idade avançada, na casa dos seus setenta e vai lá quantos. Porém, tal senhor é de uma vitalidade que só poderia, alias pode, ser explicável por viver totalmente isolados em uma modesta casa de barro e piaçava que o mesmo fez. A parecer, já que eles são os únicos atores do filme. O inicio chega até a ser angustiante, pois já encontramos a senhora em seus últimos respiros, e seu esposo tentando, ou fazendo o que pode (já que percebemos em sua face que já saberia que ela iria a qualquer instante/segundo) para meio que dizer sem palavras a esposa que ela poderia ir e não precisaria sentir dor, porque a sua hora tinha chegado. Mesmo assim, os primeiros quinze a vinte minutos do filme são desesperadores pela atuação da atriz em encenar suas dores físicas e a sua consciência de que nada poderia fazer para continuar com seu amado, já que ela saberia que seria deveras difícil a vida pra ele sem ela; a única pessoa que tinha ao redor de uma espécie de floresta amazônica inabitável portenha. Mas por que o filme é do caralho?! Porque o silencio de setenta e poucos minutos de projeção são barulhentos pra caralho; a situação em si não carecia de vozes, apenas de olhares curiosos de que como seria tal situação do casal de anárquicos que resolvera romper com os padrões da sociedade e ligar o foda-se para a convivência social com outros, até com animais, inclusive. A segunda parte da história começa quando a esposa para de grunhir de dor e então morre (resistente ela, escreva-se de passagem). O marido agora cava raivosamente uma cova para enterrá-la ao redor do matagal da sua casa; cava raivosamente porque, evidente, não aceita ainda a “ida” ao além da sua companheira. Para não pirar sozinho no mato o homem tenta amenizar sua mente e depressão tomando banho de cachoeiras e fazendo fogueiras toda santa noite; e é no fogo que ele encontra a forma em se sentir mais aliviado ou menos tresloucado por agora estar sozinho na vida. Mete fogo tanto no corpo já inchado da esposa e também na casa onde moraram e construíram juntos. Esta foi a forma que ele arrumou para tocar a sua vida sem ela: não ter lugares para jogar flores todos os dias junto ao túmulo, pois, como a casa, o corpo da sua esposa agora era apenas um punhado de cinzas também. Um filmaço que não disse nenhuma palavra , pois tudo já se encontrava escancarado em suas imagens e na ousadia do diretor em colocar suas câmeras em lugares inusitados e com um resultado surpreendente. Se não fosse o filme que vi chamado O Estranho Caso de Ezequiel, torceria para esta fabulosa e fantástica película que fica por muito tempo em nossa cabeça, e nos ensina que o mais importante não é falar, mas sim sentir.

Um Outro Ano ( Another Year )

Dirigido e roteirizado por Shengze Zhu, China, 2016.

Em sua estreia mundial em pleno rigoroso “inverno“, no V Olhar de Cinema, em Curitiba. O documentário de três horas cravadas, nos mostra o quão importante é um “comer entre família”. Refiro-me, óbvio, as refeições feitas com todos da família em mesa, que neste caso era composta por duas crianças, uma adolescente, marido e esposa. Especificamente a obra nos mostra treze encontros culinários da família chinesa, sendo que cada evento equivaleria a um mês (janeiro, fevereiro, etc), somando-se então doze, e mais um mês, que propositalmente tem como titulo do filme como Um Outro Ano, ou o décimo terceiro jantar/mês. O que me fascinou na obra é sua simplicidade, como por exemplo a adolescente falar para o pai que ele cobra muito pouco em suas viagens para entregar materiais de construção; e este por sua vez reclama com sua primogênita que ela come muito, estuda pouco e já passou da hora de arrumar um emprego. A obra é muito rica também em abordar como a China adentra-se no mercado internacional, furando seus concorrentes com preços mais baixos em praticamente todos os setores; exemplo este dado pelo pai de família da empresa que trabalha em uma multinacional. A obra não esquece da China tradicional mostrando a vila onde a mãe desse trabalhador reside, após sofrer um derrame (um veia estourou da testa da idosa que a partir da determinado minuto já entra na obra impossibilitada). Entretanto o trunfo da fita chinesa é mesmo este ato universal de fazer as refeições entre os seus; como tudo é discutido ali naquela hora sem forçação de barra de ninguém: a comida entra e os problemas e suas soluções saem.

João e Maria

Eduardo Baggio, Brasil, 2016.

O curta metragem faz parte da mirada paranaense do V olhar de cinema, festival internacional de Curitiba. João pede na rádio uma namorada pra ele, que tenha menos de sessenta quilos. No decorrer do filme que percebemos que João era violeiro, mas a música já não o completava como dantes então. Agora com sessenta anos caça desesperadamente uma mulher para passar o resto dos seus dias. A mulher aparece e João tem o que pediu na rádio, mas será que João ganhou mais ou perdeu? Esta pergunta regurgitou-se em minha mente pelos seguintes aspectos: já que João era músico, porque então abandonar sua paixão, só porque sua nova namorada não queria um “cara de farra”? João aceita a sua derrocada profissional em prol da sua felicidade matrimonial, mas eis que o Ás de copas surge na trama híbrida; Maria não só arranca o coração do seu carente amado, mas como também rouba a sua profissão, fazendo de João um acompanhante para ela , agora cantar. Ou seja: em uma flechada só Maria arruma um marido e um novo emprego, o do seus sonhos de garota. E João se dá por satisfeito com isso. O filme aborda de como cada indivíduo tem ambições diferentes; vamos chamar a Maria de escrota e o João de otário, podemos fazer isso? Claro que não, se Maria tem mais ambição em vencer na vida que João, que já se deu por satisfeito pelo que fez e tem, não vamos julgá-los, mas que ambição ajuda para que o sujeito pense alto, isso ajuda, sejamos então todos Marias, mas não “as vai com as outras”, mas sim as que tem atitude.

O Último Retrato

Arthur Touto, Brasil, 2016.

Trata-se do primeiro filme de ficção do diretor. Rodado metade em São Paulo e outra em Curitiba, o filme é no mínimo instigante, e escrevo no mínimo porque muitas indagações o filme pode nos transmitir em temas existenciais profundos como morte e perda. Não sabia que quando alguém morre, outro alguém precisa solicitar sua conta do Facebook; não a toa existem tantos falecidos por lá, agora entendo. Fato é que agora Amanda precisa lidar com a ausência de Pedro, supostamente seu marido. Amanda alimenta o “face” de Pedro com fotos suas, transmitindo que aquele que está por lá ( no face ) ainda esteja vivo. Amanda se faz de Pedro publicamente para se sentir próxima de uma pessoa que já foi, e de certo modo, aos poucos, ou aos muitos, Amanda vai conseguindo ficar igual a Pedro, ou seja, invisível. Achei o curta profundo porque tive a sensação de morte, de uma auto-morte(conhecido também por suicídio) de Amanda. Enfim: perdas, incompreensões de vida e de morte, dependências emocionais dos que já não estão aqui entre nós são jogadas em tela para que julguemos Amanda e perguntemos, e se fosse comigo, como agiria? Difícil saber a resposta, só vivendo a situação. No meu primeiro dia, sem dúvidas, o melhor filme que vi na Mirada Paranaense do Olhar de Cinema.

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Este post estará em constante atualização!

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