Irmã Dulce, com direção de Vicente Amorim, Brasil, 2013.

Verdade que demorei a escrever essa crítica. Assisti a obra fílmica quando estava em cartaz no fim do ano passado, entretanto inúmeros fatores me fizeram ter um certo cagaço admitido em fazer esta escrita demasiadamente humana. De início o meu bloqueio para conseguir transpor o filme em letras vem do local que o filme é rodado: Em Salvador, capital da Bahia. Nasci e me criei nesta cidade, então é até óbvio que cenas que mostravam locais que estava careca em ir mexeram comigo, e também principalmente pelo jeito eficazmente transposto no filme do soteropolitano; Jeito este estereotipado por indivíduos sem muitas preocupações materiais e insistentes em encontrarem brechas de esperanças em situações nada esperançosas. Sim: Identifiquei-me especificamente com este jeito de lidar com os problemas da vida dos meus conterrâneos, mais até que com a própria protagonista Irmã Dulce, conhecida por aqui por ser a eterna mãe dos pobres. Até mesmo porque não teria tão irresponsável pensamento insano em me comparar com ela, porém no meu particular, e algumas pessoas já me falaram isto, tenho um lado meio de médico e meio de músico.

Seria no mínimo uma temeridade ousada qualquer tipo de comparação com algumas qualidades do meu particular em consideração ou comparação com as qualidades de uma pessoa que é considerada uma santa para a Bahia; E Santa pelos milagres que fez em vida salvando muitas bocas famintas e/ou corpos doentes de “Ns” doenças; Sejam estas de tipos: Físicos, emocionais ou mentais. Se a igreja católica tiver afim, por razões políticas em canonizá-la, será de bom grado, mas fato é que Irmã Dulce, muito antes de morrer já era considerada uma santa entre nós baianos enquanto ainda era viva.

Exposto isto podemos dissecaresta obra, assim como esta fez com a vida da freira. A produção se inicia quando a freira era uma adolescente, interpretada pela bela Bianca Comparato. O início de sua vida eclesiástica acontece em uma cidade do interior baiano em um convento das freiras católicas beneditinas: Um tipo de especialização de rumo que freiras novatas poderiam vir a tomar. As tais freiras beneditinas tinham como principal função ou missão na igreja católica em amparar os mais necessitados, como por exemplo, levar sopas aos mendigos ou cuidar dos enfermos que apareciam no monastério. Local este já em capital baiana: O berço ou a latência da igreja católica no estado nordestino que Irmã Dulce começa a enraivecer as freiras que lhe chefiavam, pois até mesmo para as freiras beneditinas à bondade tinha limite; Existiam regras dentro do convento que as freiras tinham que obedecer, tais como: Chegar até determinado horário lá; Não levar nenhum necessitado para morar no convento, etc. Pois bem: Irmã Dulce transgride todas estas ordens e faz que seu coração a guie em todas as suas decisões. Fato este que deixam as freiras superiores e até suas colegas “putas” da vida por inveja de não poder ser aquele ser humano extremado de coração que era Irmã Dulce.

Com o passar do tempo e nova mudança na interpretação da atriz, Regina Braga, Dulce acaba conseguindo construir o galinheiro do convento em um centro médico de reabilitação; O seu primeiro hospital criado (Hoje existe um considerado complexo beneficente com o nome da freira na cidade baixa em Salvador no bairro cujo nome sugestivo é Roma; Todavia é importante salientar que o primeiríssimo hospital que a freira construiu foi feito sem ajuda alguma política, diferente dos outros quando Dulce já era considerada como : “O anjo bom da Bahia”). Mas, como mencionava, as barreiras impostas pelas regras rígidas da igreja católica iam sendo derrubadas por aquela criatura magra, asmática, de pouca estatura e que ninguém dava nada se visse na rua pela primeira vez; Era um típico estereótipo de ser inferior: Raquítica, voz rouca, passos lentos, sem nenhum atributo físico considerado que lhe desce vantagem atrás daquele longo vestido “freiral”. O seu coração e a sua vontade em ajudar o próximo transforma o destino daquela interiorana fadada a ser mais uma na multidão a fazer à grande diferença na vida de muitas pessoas.

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Um fato curioso me chamou atenção no filme do qual não tinha conhecimento; Como Irmã Dulce era total antissocial, não gostava muito de holofotes, só queria ajudar as pessoas e ponto final. Pelo fato de Dulce ser esta “marginal”, o meio católico a ignorava, e quando o Papa polonês João Paulo II esteve em Salvador a desconhecia, e por isso negou o pedido de Dulce em conhecê-lo. Somente na segunda vinda do mesmo Papa à salvador, e com Dulce já na beira do outro lado é que o Papa João Paulo II foi ao hospital se despedir do anjo bom da Bahia. É importante frisar que ele só faz tal ato por livre e espontânea pressão da comunidade soteropolitana, que ao menos no leito de morte da freira que de alguma maneira a igreja tenha dado um reconhecimento a sua pessoa em vida, ou semi-vida.

O filme acaba se tornando leve por abordar temas sociais complexos de formas tão engrandecedoras; Todavia é importante não nos deixarmos enganar pela leveza que o diretor quis imprimir na obra fílmica, pois as piores mazelas de hipocrisia brasileira estão claramente nuas e cruas no filme, basta ter um pouco de bom senso, sensibilidade ou ambos para poder enxergá-las. Ótima homenagem a uma pessoa ou santa que fez a diferença enquanto esteve entre nós: A nossa Dulce dos pobres e desamparados.

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