Insterstellar

Diferente da defesa do meu time do coração, em Nolan podemos confiar. E quando as primeiras notícias a respeito do que seria a sua mais ambiciosa produção cinematográfica começaram a chegar, rapidamente “Interstelar (Interstellar)” começou a encabeçar praticamente todas as listas de filmes mais esperados de 2014. Deixando um pouco o “sombrio” de lado, Nolan manteve suas principais marcas registradas mas resolveu colocar um pouco mais de “coração” e o resultado é uma obra visualmente impecável e com grandes momentos, mas que escorrega um pouco na força do amor e na ciência mágica em seu desfecho.

Num futuro incerto a humanidade está em uma luta incessante e dura pela sobrevivência, vivendo em um mundo onde pragas varreram e destruíram quase todas as plantações e a agricultura, abrindo caminho para tempestades devastadoras e uma constante poeira que parece tomar conta de tudo. Nesse contexto nada favorável é que vamos conhecer Cooper (Mathew McConaughey, “Clube de Compras Dallas”) um ex-piloto que vive da única profissão incentivada no planeta atual, fazendeiro.

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O início lembra bastante aos antigos filmes de Steven Spielberg, a conexão de Cooper com sua família – em especial a sua filha Murph (Mackenzie Foy quando criança e Jessica Chastain quando adulta) – é muito bem apresentada e construída, fator decisivo para fazer o espectador torcer pelo protagonista do início ao fim da história. Não só os elos familiares, mas toda a ambientação de como a Terra está devastada é muito bem feita e ajuda a entender a difícil decisão que Cooper precisará tomar.

Nolan foi muito ambicioso nesse seu projeto, e isso é muito bom. Toda a aventura que se inicia com a ‘jornada espacial’ é visualmente impecável e, com maestria, são criados momentos de muito deslumbramento. As cenas no espaço e toda a ‘tramamóia’ envolvendo um buraco de minhoca (wormhole) são um assombro em termos de efeitos especiais. Alguns planetas são visitados mas é em um coberto de água e com ondas IMENSAS que estão guardados alguns dos melhores momentos em termos de ação de todo o filme.

Existe ainda um jogo muito inteligente que brinca com algumas teorias científicas – existiu uma pesquisa muito cuidadosa com cientistas, físicos e estudiosos diversos para contextualizar tudo o que iria ser utilizado – como a da relativade de Einstein e algumas ‘brincadeiras’ em relação ao tempo que contribuem e muito com o tom de urgência em determinadas partes do filme.

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Em meio às reviravoltas e ‘plot twists’ que tanto Nolan gosta de utilizar em seus trabalhos, existe um flerte interessante com muita coisa que Kubrick utilizou em uma de suas maiores obras, “2001: Uma Odisséia no Espaço”. Só que um dos maiores problemas é que o diretor optou por criar algo ambicioso e complexo e, ao mesmo tempo, comovente e fácil de ser entendido, recorrendo muito à “ciência mágica” e respostas (para tudo) nem sempre satisfatórias.

Rever sua família ou salvar a humanidade? Este é o dilema que carrega o nosso herói nessa ficção científica com efeitos especiais e visual deslumbrante, uma trilha sonora muito interessante de Hans Zimmer e que é uma verdadeira jornada emocional. É uma pena que nos últimos instantes Nolan recorra a uma “marreta mágica” em seu roteiro tão bem construído e baseado na ciência, para apelar para a “força do amor” e algumas coincidências e resoluções que são um pouco duras de aceitar em meio a algumas reviravoltas mirabolantes.

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De qualquer forma “Interstellar” ainda pode ser considerado um ótimo filme, bem dirigido e que mesmo com algumas escolhas infelizes entrega uma jornada incrível de se acompanhar com direito ainda a um lado emocional que Nolan negligenciava um pouquinho em suas outras produções. Mesmo sendo um filme que vem dividindo algumas opiniões e apesar de possuir alguns problemas, trata-se sem dúvidas de uma obra que merece ser assistida e ‘vivida’ no cinema.

***

  1. Jonathan Nolan, irmão do Cristopher Nolan, escreveu o roteiro primeiramente para Spielberg (isso explica bastante a força “familiar” presente na história) que depois foi reescrito com a ajuda de seu irmão.
  2. O elenco está excelente no filme, principalmente Matthew McConaughey e Jessica Chastain. Talvez apenas a Anne Hathaway não esteja no mesmo ‘nível’ dos demais atores do elenco de apoio.
  3. Minha classificação orbitou entre 3 e 4 controles, resolvi aproximar para cima por conta da gravidade favorável e da força de empuxo cinética do buraco de minhoca próximo a Saturno.
  4. In Nolan We Trust, esse mantra ainda está valendo para mim 🙂

Ótimo: Classificação 4 de 5

Interestelar (Interstellar, 2014 – 169 min)
Ficção científica

Dirigido por Christopher Nolan com roteiro de Cristopher Nolan e Jonathan Nolan. Estrelando: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Wes Bentley, Jessica Chastain, Matt Damon, Mackenzie Foy, Elyes Gabel, Michael Caine, Casey Affleck, Topher Grace, Ellen Burstyn e John Lithgow.

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Author: Marcio Melo

Analista de Sistemas, amante da sétima arte desde os tempos imemoriais e com muito sangue nerd fervilhando em veias hipertensas, fundou o Porra, Man! com o intuito de comentar sobre cinema de forma descomplicada e fácil de entender. Nas horas vagas torce prum time que nunca vence e mata monstros que não existem.

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10 Comments

  1. Excelente crítica, foi como me senti em relação ao filme, uma obra que certamente irá repercutir no tempo-espaço. (Adorei a trilha do Hans com nuances de Zarathustra) 🙂

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    • Sim, que bom que adorou também meu velho. E a trilha sonora casa muito com o clima do filme, principalmente nos momentos mais “contemplativos”.

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  2. Nolan ainda é um dos meus diretores favoritos, mas esse talvez seja seu filme “menos bom”.
    O roteiro tem muitos outros problemas, mas consegue nos fazer esquecer dele durante o filme.
    E parte final com certeza é a mais fraca do filme, mas eu gostei apesar do “amor”.
    A parte do espaço, depois de Gravidade acho que Nolan deve ter pego um ar monstro pensando em como fazer algo melhor e não conseguiu. hehehehehe… As vibes são bem diferentes, mas vale a piada.

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    • Não sei man, achei o final meio forçado e meio que te “tira do filme”, não sei, mas não chega a ser nada que estrague tudo

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  3. Achei o filme muito bom, mesmo com os percalços finais. O lance da Anne creio se dever mais à personagem do que a atriz, fica difícil extrair algo de onde não há o que explorar.

    Eu já sabia dessa parte final questionável e, à medida que assistia, ficava ansioso e triste por saber que alguma coisa ia dar errado e aquela parte inicial tão excepcional iria ficar prejudicada, infelizmente, no final, isso se confirmou, mas não chegou a estragar tudo, mas afetou.

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    • Geralmente reagimos melhor quando ocorre o contrário, o filme começa mal mas termina bem hehehe

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  4. belo texto, márcio!

    o final pode ter forçado a barra um pouco, mas acredito que dentro desse tema quase tudo é possível…

    achei o primeiro ato perfeito dentro do contexto da sci-fi e o segundo também excelente. no geral gostei demais. e como você falou, experiência para ser vivida dentro da sala do cinema… (apesar dos riscos passar raiva, não é mesmo?)

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    • Dentro do tema sim, quase tudo é possível mas o final poderia ser melhor e menos marreta mágica, de qualquer forma é mesmo um ótimo filme, com belas cenas e momentos incríveis.

      Por outro lado ir ao cinema tem sido mais perigoso e inóspito do que alguns dos planetas que vimos nesse filem de Nolan, uma pena.

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  5. Ola!!

    Gostei bastante do filme e só fiquei (como todo mundo) triste com o final. Me lembrou muito o Europa Report nesta questão de estragar o final com uma solução fácil. Fiquei abismado com a parte do espaço no começo (confesso que nessa hora me arrependi de não assistir Gravidade no cinema)
    Também achei a atuação do Mathew McConaughey muito parecida com o personagem dele no True Detective. Mas nada disso estraga a diversão que é assistir esse filme.

    abraços e parabéns pelo site. Sempre antes de assistir passo por aqui pra saber se vale a pena ou não.

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    • Tem razão, lembra mesmo o ‘arco’ de Europa Report que conseguiu no último minuto estragar o desfecho.

      E Gravidada realmnente vc perdeu de experienciar o filme no cinema, um dos raros que conseguiu utilizar muito bem o 3D.

      E valeu pelo ‘pestígio’ 🙂 Grande abraço!

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