Com uma premissa deveras interessante e baseado em obra literária do grande escritor José Saramago, “O Homem Duplicado (Enemy)” é bem dirigido e conta com uma boa atuação do ator Jake Gyllenhaal, mas é acompanhado de uma história que entrega menos do que esperam aqueles que gostam de filmes bem mastigados e explicados.

Na trama somos apresentado a um professor de história (Jake Gyllenhaal, “Os Suspeitos”) que leva uma vida não muito feliz e que, certo dia, descobre que existe um ator de cinema (de terceiro escalão) que é idêntico a ele. A curiosidade fala mais alto e então ele resolve conhecer quem é este seu ‘sósia’ e acaba se envolvendo mais do que deveria, incluindo no ‘pacote’ sua namorada (Mélanie Laurent, “Bastardos Inglórios”) e também a esposa grávida (Sarah Gadon) de seu ‘duplo’.

"O Caos é uma ordem ainda indecifrável"

“O Caos é uma ordem ainda indecifrável”

Jake Gyllenhaal repete a parceria de sucesso com o talentosíssimo diretor canadense Denis Villeneuve e consegue atuar muito bem em ambas versões do tal homem duplicado. Enquanto professor de história um sujeito que lembra muitas pessoas que conhecemos por aí, que levam a vida no automático e sem grandes paixões, por mais que tenha à sua disposição uma mulher como Melánie Laurent. O suspense que sustenta o início da trama é movido então pela curiosidade/fascínio que ele enxerga em seu duplo, um ator de cinema que por mais que tenha uma vida invejável parece não estar satisfeito com o que tem, já que sua esposa (outra loira linda e magra, ainda que grávida) reclama de antigos casos dele que, por sua vez, visita escondido um clube com uma seita estranha que flerta com a dor e o prazer.

O filme é denso e tanto a fotografia quanto a trilha sonora contribuem para ampliar o clima de suspense e tensão propostos pela narrativa que, ainda que siga uma sequência ‘linear’ e ‘tangível’ de acontecimentos, apresenta-se um tanto quanto complexa e confusa demais em determinadas partes. Para os impacientes que querem logo “matar a charada” da história pode se tornar uma jornada um tanto quanto dolorosa e indigesta, já que “O Homem Duplicado” se propõem na verdade (em minha visão míope) a um exercício de discussão de ideias e passagem de uma mensagem que conversa sobre identidade em tempos em que “somos todos iguais”.

A dama da busu

A dama da busão.

Bem próximo ao seu desfecho, o filme parece querer entregar a ‘chave’ para todas as respostas, mas se encerra numa cena que devora de vez a vontade daqueles que esperam que uma obra cinematográfica seja fechadinha e lhe entregue tudo de bandeja. Nesse quesito, “O Homem Duplicado” se sobressai a demais obras do gênero por estender as discussões sobre o seu significado para além da sala do cinema, ainda que se encontre naquela linha tênue entre um final inteligente e ousado ou uma saída rápida pela esquerda (e mais cômoda), já que muitas vezes é melhor sugerir vários caminhos do que apontar para qual direção o espectador deva seguir.

***

  1. Pelo que pude ler da excelente crítica da Alessandra Ogeda no Crítica (non)Sense da 7Arte, o livro de Saramago do qual o filme se baseia vai um pouco além com algumas coisas que são apenas sugeridas no filme.
  2. O filme me deixou interessado em ler o livro de Saramago, mas talvez não pelos motivos mais nobres e sim por conta de que ele parece não se sustentar totalmente no que foi apresentado, deixando uma sensação de “falta” que não deveria existir em obras adaptadas para o cinema.
  3. Foi proibido que os atores falassem/discutissem durante as entrevistas sobre o filme a respeito do significado das aranhas. Existe um consenso que elas representam a fraqueza que tanto o professor quanto o ator de cinema possuem diante das mulheres, que seriam na verdade as verdadeiras dominadoras.

Bom: Classificação 3 de 5

O Homem Duplicado - PosterO Homem Duplicado (Enemy, 2014 – 90 min)
Suspense

Dirigido por Denis Villeneuve com roteiro de Javier Gullón. Estrelando: Jake Gyllenhaal, Sarah Gadon, Mélanie Laurent, Isabella Rossellini e Stephen R. Hart.

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