Assistir a um filme nacional para algumas pessoas tem o mesmo sabor que ser abordado para fazer um cartão de uma loja de departamentos, culpa em parte pela oferta (e demanda, ou seja, a culpa é também do público) de produções brasileiras encontradas em nossas salas de cinema que, geralmente, cedem seus lugares para obras mais “fáceis” e que possuem um retorno (na bilheteria) mais “certo” e satisfatório, pouco importando sua qualidade. Só que existem produções nacionais que fogem dessa mesmice, desta preguiça de trilhar os mesmos caminhos de “sucesso” (financeiro) e que se tornam verdadeiros marcos e também obras indispensáveis, e este é o caso de “O Som ao Redor”.

Na trama acompanhamos a vida de alguns moradores, num bairro de classe média do Recife, que sofre algumas mudanças com a chegada de uma milícia. A chegada desses ‘seguranças particulares’ traz tranquilidade para alguns e tensão para outros moradores. Enquanto isso, uma dona de casa tenta encontrar uma maneira de lidar com a sua insônia provocada pelos contantes latidos do cachorro do vizinho.

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Numa das melhores cenas do filme, durante uma reunião de condomínio, uma senhora fica indignada com os serviços prestados pelo zelador do prédio que, PASMEM, entrega suas revistas sem o plástico, um verdadeiro absurdo. E esta cena é bastante interessante, reparem como o jovem interpretado por Gustavo Jahn que parece ser o boa praça, o bom sujeito, se revolta com a situação que está armada para demitir por justa causa o porteiro mas não “perde seu tempo” para lutar por isso e prefere faturar a mocinha que ele está ficando. Fora uma outra passagem sua em que ele compara seu intercâmbio nos EUA com o trabalho num supermercado que o filho da secretária do lar (empregada não que não somos senhores feudais) arrumou. São comparações e comentários ofensivos e sem o menor cabimento (que para muito de nós parecem normais) que compõem e moldam a sofrida classe média brasileira. Ironia é vida.

Existem outras passagens marcantes e muitas delas envolvendo a dona de casa que passa o dia no ócio em casa ‘cuidando dos filhos’ e, de quando em vez, dando um tapa na pantera e fumando uns baseados. A sua luta constante em tentar silenciar o cachorro do vizinho é acompanhada do início ao fim da história e vemos que ela tem uma vida monótona mas que reserva alguns raros e pequenos prazeres como, por exemplo, se masturbar (fazer sexo?) com a máquina de lavar ou receber uma deliciosa massagem de seus filhos.

somo ao redor cena

Existem alguns momentos um pouco surrealistas como por exemplo em uma passagem em que o sujeito enxerga a sua rua como ela era antigamente. Será que mudou muita coisa? O som que dá título foi interpretado por muita gente como sendo o personagem principal de todo o filme e não é difícil entender o porquê. Apesar disso “O Som ao Redor” poder ser (também) interpretado como uma uma obra que trata de diversos ‘estudos de casos’ sobre a segmentada sociedade brasileira, a divisão em capítulos ajuda ao espectador a se lembrar que existe uma história principal que acompanha os capítulos em que o filme é dividido e, no final, temos ainda uma cena que faz nos remeter ao início de toda a trama, o famoso ‘plot twist’.

Crítico de cinema, Kleber Mendonça Filho conseguiu criar uma obra que expõe os variados conflitos que envolvem e circundam a classe média brasileira trazendo uma visão bastante realista sobre o assunto. Como se não bastasse tudo isso, “O Som ao Redor” é uma produção nacional de altíssima qualidade e que, corajosamente, sai do comodismo habitual do cinema feito no Brasil que prefere muito mais apostar numa fórmula de sucesso fácil e “garantida” do que se arriscar a produzir uma obra com maior qualidade, culpa, em parte, da forma ‘oligárquica’ em que a distribuição dos filmes nacionais é feita em nossas salas.

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São muitos personagens que carregam muitos anseios e muitos medos (a cena do sonho da garotinha diz muito sobre isso), e numa realidade em que vemos ao nosso redor ruas cada vez mais vazias e desabitadas (estamos todos confinados com medo dentro de nossos lares) e cada vez mais aumentamos os nossos muros e instalamos todos os tipos de sistemas de segurança (de táticas medievais à novas tecnologias) é impossível não se identificar com muita coisa apresentada em “O Som ao Redor”. Pior que tudo isto é constatar que, mesmo diante desse abismo social em que o Brasil se encontra, a classe que mais reclama dos absurdos e sofrimentos ainda é a nossa querida classe média.


O Som ao Redor (2012/2013 – 131 min)
Drama, Suspense.

Um filme de Kleber Mendonça Filho com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, W.J. Solha, Irma Brown, Lula Terra e Yuri Holanda.

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