Classificação Geral (trilogia):

Introdução

Em 1912, o intelectual italiano Ricciotto Canudo, propôs no seu Manifesto das Sete Artes e Estética da Sétima Arte que o cinema fosse considerado como a sétima, sendo elas, portanto: Arquitetura, Escultura, Pintura, Música, Dança, Poesia e Cinema. Segundo o manifesto, o teatro não aparece na lista como uma forma independente de arte, porque combina diversas linguagens artísticas existentes. Pois contrariando um pouco a lógica de Canudo, eu acabei assistindo um filme do seu conterrâneo, Sergio Leone, por influência da sua famosa música tema, deixando a impressão de que o cinema também pode combinar diversas linguagens artísticas, mas mesmo assim ser uma forma de arte independente. Por um pequeno lapso, acabei descobrindo que o filme que assisti era o desfecho de uma trilogia, então resolvi assistir seus antecessores e inovar um pouquinho neste texto, espero que eu consiga me fazer entender com mais clareza que Canudo.


Por um punhado de dólares (Per un pugno di dollari) – 1964

Per un pugno di dollari (Por um punhado de dólares, 1964 – 100 min)
Faroeste.
Dirigido por Sergio Leone. Roteiro de A. Bonzzoni, Victor Andrés Catena, Sergio Leone e Jaime Comas Gil. Inspirado no filme Yojimbo, de Akira Kurosawa Elenco principal: Clint Eastwood e Gian Maria Volonté.
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Como comecei a trilogia assistindo Três Homens em Conflito (1966), o último, de início foi um pouco estranho ver um filme que gira em torno apenas do Pistoleiro sem nome (Clint Eastwood). Aliás, neste filme ele é chamado de “gringo”, “americano” e “Joe”, mas não me parece que este seja seu verdadeiro nome. A trama abre suas aventuras e mostra sua chegada em uma pequena cidade mexicana chamada San Miguel, a qual é dominada por dois grupos rivais, chefiados pelos irmãos Rojos de um lado e por John Baxter do outro. Utilizando-se de artifícios engenhosos o Pistoleiro busca lucrar com esta rivalidade, atuando em ambos os lados da disputa, porém as coisas se complicam quando ele resolve ajudar Marisol, que foi separada de seu marido e filho pelo poderoso e apaixonado Ramón Rojo (Gian Maria Volonté).

Em uma saga como esta, é inevitável fazer comparações entre os filmes, e como assisti primeiro o último, tenho ele como meu paradigma. Assim, Por um punhado de dólares é tão bem feito e interessante quanto Três Homens em Conflito, o filme abusa um pouco na boa pontaria dos personagens, mas acerta muito na construção da história. Porém, embora seja bom um filme com foco exclusivo no Pistoleiro sem nome, que é o personagem central e, com certeza o mais interessante da trilogia, acho que o grande trunfo do último filme se deve justamente a presença do “mau” e do “feio”, que em contraste com o “bom” Pistoleiro sem nome construíram uma verdadeira obra prima. De qualquer forma, Por um Punhado de Dólares é a primeira parte, desta trilogia clássica do western, e marca o início das aventuras deste emblemático personagem de Clint Eastwood, deixando muitos cinéfilos curiosos para, já no ano seguinte, descobrir o que o Pistoleiro sem nome faria “por uns dólares a mais”.

“Quando um homem tem dinheiro em seu bolso ele começa a apreciar a paz”

- Pistoleiro sem nome


Por uns dólares a mais (Per qualche dollaro in più) – 1965

Por um punhado de dólares (Per qualche dollaro in più, 1965 – 132 min)
Ação, Faroeste.
Dirigido por Sergio Leone. Roteiro de Fulvio Montella, Sergio Leone e Luciano Vincenzoni. Elenco principal: Clint Eastwood, Lee van Cleef, Gian Maria Volonté, Klaus Kinski.
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No final do primeiro filme da trilogia, eu realmente acreditei que não teria problemas por ter começado a assistir pelo último, mas me compliquei um pouco em Por uns dólares a mais. A segunda parte da história do Pistoleiro sem nome (Clint Eastwood) – neste filme chamado de “Monco” e “Amigo” – mostra ele, mais do que nunca, como um caçador de recompensas. Na cola de El Índio (Gian Maria Volonté), por um prêmio de 10 mil dólares, ele se encontra com o Coronel Douglas Mortimer (Lee Van Cleef) – o “Angel Eyes” do terceiro filme – que também quer o prêmio. Por fim, eles resolvem se unir para eliminar o bandido e seu bando e dividir o dinheiro. A verdade é que este filme é, mas perdeu nota, principalmente por ser o último que eu assisti.

O problema é que falta nexo na ligação da história dos 3 filmes – principalmente entre o segundo e terceiro – e o responsável por interligar essas histórias, é claro, é o filme do meio. O Coronel se mostra um homem de caráter louvável, justo, e em alguns momentos, até mesmo bondoso, completamente diferente de Angel Eyes, “o mau” de Três homens em conflito, e quanto ao Pistoleiro sem nome (ou “Monco”, “Joe”, “Blondie”, “Amigo”, etc.) ele parece meio bipolar, pois também não é exatamente o mesmo nos três filmes. CONTÉM SPOILERS: Outro ponto incompreensível é que o Pistoleiro sem nome planeja “se aposentar” com os 10 mil da recompensa obtida com a captura de El Indio. No final ele fica com a recompensa pelo bandido e pelo bando todo (27 mil), além do dinheiro do banco roubado por eles, mas começa o terceiro filme dando pequenos golpes junto com Manco, mesmo tendo conseguido muito mais do que o dobro do que queria para pendurar o revólver. FIM DOS SPOILERS: O filme é bom e separadamente merece uma nota 4, mas dentro do contexto da trilogia ele acaba sendo o pior deles, pois se mostra bastante ineficaz na ligação das histórias.

“Onde a vida não tinha valor, a morte, às vezes, teve seu preço. É por isso que os assassinos de recompensa apareceram”

- Créditos Iniciais


Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo) – 1966

Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966 – 161 min)
Aventura, Crime, Faroeste.
Dirigido por Sergio Leone. Roteiro de Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Luciano Vincenzoni e Sergio Leone. Elenco principal: Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach.
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Pois bem, minha falta de conhecimento sobre a saga me fez começar a assisti-la por este filme, o último, porém, provavelmente, o melhor, considerado inclusive o maior clássico do gênero western. A trama conta a história de três homens que vão atrás de um tesouro escondido em um cemitério, sendo que cada um conhece uma parte do segredo sobre o esconderijo, eles precisam um do outro para encontra-lo. O interessante é que eles têm personalidades bastante distintas, as quais justificam os “apelidos” do título. Blondie (mais conhecido como o Pistoleiro sem nome) é dotado de princípios morais muito fortes, sendo assim “o bom”, um dos personagens mais carismáticos que já vi, provavelmente devido a grande atuação de Clint Eastwood, que proporciona um show à parte; Angel Eyes (Lee Van Cleef) é um caçador de recompensas que “sempre termina um trabalho”, matando sempre a sangue frio, caracterizando-se muito bem como “o mau”; Tuco (Eli Wallach) é realmente “o (mais) feio” (na tradução do título original em italiano seria “o vilão”, detalhes…), mas acredito que seu apelido se justifique mais por sua personalidade, afinal ele é de certa forma um trapalhão, bastante manipulável e, apesar de se mostrar esperto, ou malandro, em diversos momentos, na verdade ele é meio burro. Isso fica bastante evidente na cena em que Angel Eyes o tortura para descobrir sua parte do segredo, mas nem tenta descobrir a parte de Blondie, pois afirma que ele é esperto demais para dizer.

Confesso que não sou (ou não era) muito fã do gênero western, mas me surpreendi muito positivamente com Três homens em conflito. O filme abusa de tiros absurdamente certeiros, mas creio que isso seja inevitável, assim como algumas piadas sem graça são inevitáveis até nas melhores comédias, o importante é que a história é muito bem construída e a relação dos três personagens, com suas personalidades completamente distintas e conflitantes, dá um toque especial ao filme que, com boas suas atuações, conseguiu rever meu conceito sobre o cinema mais rápido do oeste.

“Quando você tem que atirar, atire. Não fale”

- Tuco (The Ugly)


Conclusão

Embora falte um pouco de nexo entre os filmes, como um todo, e alguns personagens não tenham um nome definido (pior para o Pistoleiro sem nome que tem vários nomes não reconhecidos), a trilogia inteira é muito boa. É importante considerar ainda que os filmes foram lançados em 1964, 1965 e 1966, ou seja, um filme por ano, o que é realmente impressionante se você considerar outras sagas com intervalos de anos entre um filme e outro. Em minha opinião dois pontos principais fazem da Trilogia dos Dólares uma referência no gênero western: 1º) As atuações de Clint Eastwood, que incorporou um pistoleiro inefável; e 2º) A trilha sonora de Ennio Morricone que é realmente incrível. Assim, embora seja impossível comparar os dois primeiros filmes com Três homens em conflito, a trilogia é um ícone de um gênero que já fez muita gente torcer o nariz, inclusive eu.

“Eu gosto do Clint Eastwood porque ele tem somente duas expressões faciais. Uma com o chapéu e outra sem ele”

- Sergio Leone

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Elvis José Alves

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Um velho com pouco mais de 20 anos, estudante de Direito, admirador da sétima arte e antiguidades (geralmente ao mesmo tempo), roteirista e Jedi de fim de semana. Passa o tempo livre assistindo filmes e séries, escrevendo e adiando as coisas realmente importantes.