Nome: Irreversible – 2002

Direção: Gaspar Noé

Elenco: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Jo Prestia.

Sinopse: Uma mulher é violentada durante uma madrugada em Paris e seu marido e um amigo vão em busca do homem que a estuprou.

 

O texto tem spoilers…

Hoje resolvi trazer pra vocês algo diferente. Não é um filme de terror propriamente dito mas o que é terror? Posso dizer seguramente que Irreversível é um dos filmes mais difíceis que já assisti. Não estou falando da brutalidade de Holocausto Canibal, Saló ou até mesmo Serbian Movie. No momento, não lembro de nenhum filme que tenha me deixado uma sensação tão ruim como a que senti no momento dos créditos finais de Irreversível. Gaspar Noé me lembrou de algo que o Tyler Durden disse em Clube da Luta: Preciso destruir algo belo. E no caso, ele destruiu… Passei dias com uma sensação de desesperança e por isso não vou aconselhar ninguém a assistir este filme.

 O tempo destroi tudo

Gaspar Noé tinha seis semanas para filmar. Este era o contrato com Vincent Cassel e Monica Bellucci e ao encontrar os atores ele entregou o roteiro de Irreversible com apenas três páginas. Era o suficiente para todo o filme pois o que ele queria era a espinha dorsal, a idéia e o estilo mas os diálogos e marcações seriam improvisados pelos atores. Tudo que você vê em tela é uma espécie de grande improviso orquestrado por Gaspar Noé para que não fuja da idéia central: a vida é irreversivel.

O filme começa com o açougueiro do longa anterior de Gaspar Noé – Sozinho contra todos – onde ele estabelece um diálogo curto que de certa forma mostra o desfecho de seu personagem e também diz a frase que marcará todo o filme: O tempo destroi tudo. Somos jogados em uma cena onde dois dos personagens principais, Marcus e Pierre saem presos de um determinado local. Nada é explicado e de repente somos lançados mais uma vez para outra cena onde Marcus e Pierre entram em lugar que mais parece um inferno. Luzes vermelhas, som alto, figuras indecifraveis, homens com fantasias sadomasoquistas, sexo explícito, Marcus em busca de alguém e quando parece encontrar, o rapaz lhe quebra o braço enquanto Pierre pega um extintor de incêndio e mata o homem. Não foi só uma cena de assassinato. Foi a náusea da camera girando enlouquecidamente no ambiente, a confusão de imagens, o sexo e a violência que parece gratuita, as luzes piscando, o som confuso, o assassinato de um homem que teve o crânio dilacerado por um extintor de incêndio em super close.

Com o passar do tempo você entende que não foi gratuito. Aliás, nada em Irreversível é gratuito. Na cena seguinte entendemos que aquele caleidoscópio de imagens conta uma história que é de trás pra frente. Quando terminamos uma cena partimos pra outra que aconteceu anterior a ela e assim vai. Por favor, não relacionem com Amnésia pois não tem absolutamente nada a ver, se você assistiu ambos os filmes sabe que a proposta é outra. Neste filme conhecemos a história de três pessoas: Alex, esposa de Marcus e ex namorada de Pierre. Pessoas felizes, com uma história comum e com a vida normal.

Uma das coisas mais comentadas neste longa foi a cena de estupro protagonizada por Monica Bellucci. Esta famosa cena foi ensaiada algumas vezes e na maioria delas teve mais de vinte minutos pois o homem que faz o papel do estuprador não era ator e sim um lutador profissional. Foi Monica Bellucci quem praticamente dirigiu a cena e fez os ensaios para descobrir qual seria o melhor angulo para a filmagem pois seria feita sem cortes. Este momento do filme dura 16 minutos sendo que 11 apenas com o ato do estupro. Gaspar Noé queria que houvesse um impacto grande o suficiente para que os homens também se sentissem atingidos de uma forma pessoal e por isso frisou que este deveria ser um estupro com penetração anal.

Eis que Gaspar Noé faz de você um refém. Um espectador de mãos atadas que assiste aquilo sem poder fazer nada. Esta sensação de incapacidade é muito dura e quando Alex entra no túnel, é  abordada por Tenia você sabe o que vai acontecer e só consegue pensar: Fuja, escape, corra… mas quando ele a estupra você só consegue pensar: acabe logo com isso. Você quer sair dalí, fechar os olhos, fazer aquilo acabar … e não acaba. São 11 minutos. A violência mostrada com tamanha realidade sacode por dentro e quando você pensa que acabou, vendo até o pênis de Tenia – inserido digitalmente – ele desfigura o rosto de Alex. Aqui você já está completamente exausto.

Muitos se perguntam como Alex poderia entrar, vestida de forma tão sensual em um túnel como aquele principalmente de madrugada. Eu posso dizer que jamais faria algo assim. Mas é preciso ver o contexto da situação. Lembrem-se que ela estava em uma festa com o marido e o ex namorado que tinha se tornado um grande amigo e este seria um momento muito importante o qual estava se preparando a semanas… ela contaria que estava grávida. Marcus simplesmente a ignorou, resolveu beber e se drogar além de dar em cima de várias mulheres durante a festa. Alex estava cega de raiva, se sentindo muito mal e só queria sair daquele lugar. Quando ela entra no tunel e vê Tenia brigando com um travesti é o momento em que caí a ficha de que ela estava só. Mas não havia mais como fugir.

Esse estupro foi o detonador para o ódio de Marcus e Pierre. Eles se sentiram culpados… Marcus por agir como um idiota e Pierre por não ter acompanhado Alex. Não era para ela estar naquele túnel, era para os três estarem comemorando. A loucura que se instala nos dois finalmente é entendida por nós que estamos aqui encolhidinhos do outro lado da tela. A cena em que eles entram em um taxi e vão em busca de Tenia é inebriante. Não sei como foi filmada pois parece que não há cortes e saber que aquilo foi basicamente no improviso só me faz aplaudir os dois. A cólera nos olhos de ambos é tão verdadeira que conseguimos até compartilhar dela. O frenesi da câmera expõe a confusão mental de Marcus naquele momento.

Após a cena do estupro, mostrando a cena anterior e depois a anterior… vai ficando cada vez mais calma, mais clara, mais suave. É como se aquela loucura que tinhamos assistido fosse se dissipando. Mas a sensação dentro da gente não melhora. Quando as coisas vão ficando mais coloridas mais machuca pois fica um gosto de desesperança. Você sabe que tudo aquilo vai acabar. Pierre mostrando como é um intelectual e saber que ele vai sucumbir a bárbarie matando um homem com a cabeça amassada, Alex e Marcus namorando felizes e imaginar o que a espera naquele tunel.

A vida é irreversível. Um gesto, uma palavra, uma escolha, algo mínimo e simples pode de repente mudar tudo e nada do que você venha a fazer vai mudar isso. SE Marcus não perdesse a cabeça, SE Alex não entrasse naquele tunel, SE Pierre não a tivesse deixado sozinha… será que de uma forma ou de outra isso aconteceria? Em determinado momento Alex diz que sonhou que estava em tunel vermelho. Seria essa uma forma de mostrar o inevitável? O destino? Todos eles perderam muito e nada vai ser como antes. Alex, estuprada e espancada entrou em coma e provavelmente perdeu o bebê e isso se não tiver contraído HIV, levando em conta a vida promíscua de Tenia, Marcus e Pierre presos enquanto o policial grita: “Vocês vão ser enrrabados na cadeia!” “Sabia que lá não tem camisinha?” Não adiantou matar Tenia (será que era ele mesmo?) … nossos atos são irreversíveis e o tempo não volta. Quando o filme acaba, enquando assistimos Alex feliz, em uma linda tarde de sol enquanto acaricia a barriga sentimos uma profunda tristeza… por tudo que virá e será irreversível.

Este é um filme que vai te mostrar uma Paris diferente de tudo que já viu em filmes como O famoso destino de Amelie Poulan, Meia noite em Paris, Moulin Rouge, Antes do pôr do sol… você está preparado pra isso?

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