Em tempos em que a falta de educação e o individualismo são tão grandes que o respeito ao próximo é apenas motivo de piada, ainda tento manter em mim a chama acesa da “magia do cinema”. Gosto de chegar cedo com as luzes ainda acesas, esperá-las se apagarem e então poder mergulhar no filme, me dedicar e me entregar para aqueles minutos e aquela história que algum cineasta me ofereceu. Piegas eu sei, mas é assim que sempre tento assistir aos filmes. “Tento” porque é difícil conseguir tal feito atualmente, sejam por filmes feitos “de qualquer jeito” seja pela “simpatia” e respeito que recebemos das pessoas que compartilham as salas de cinema conosco. Disse tudo isto apenas para deixar claro que Martin Scorcese conseguiu com “A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)” prestar uma grande homenagem ao cinema e, ao mesmo tempo, brincar com  sua magia, aquela menina traquina e que anda tão sumida.

Na história situada em 1930 na cidade de Paris conhecemos um jovem órfão chamado Hugo Cabret (Asa Butterfield), ele trabalha ocultamente na manutenção dos relógios da estação de trem, “profissão” que “herdou” do seu tio. Ele vive então envolto entre os mistérios da morte de seu pai e também de um autômato que ele tenta a todo custo montar e descobrir seus segredos.

Adaptado do livro escrito por Brian Selznick, indicado a 11 Oscars e tendo levado 5 prêmios (nas categorias mais técnicas), “A Invenção de Hugo Cabret” já vinha desde o ano passado ganhando a crítica lá fora. Lançado aqui neste ano, era um dos filmes mais esperados da minha lista de 2012 e que conseguiu corresponder a todas as minhas altas expectativas.

É verdade que a história não traz nada de muito novo e possui o seus clichês, mas nem por isso deixa de possuir uma levada envolvente e emocionante (sem se tornar melosa e açucarada além do ponto), que soube trabalhar bem os personagens e apresentar os grandes acontecimentos nos momentos certos, méritos de Scorcese, que saiu aqui um pouco da sua linha habitual de filmes ao trazer para as telonas uma adaptação de um conto infantil de maneira muito competente e sensível.

Impressionante é a palavra que talvez descreva melhor a utilização dos recurso em 3D neste filme, que entra para o exclusivo e muito seleto grupo de filmes em 3D que valem muito à pena (em minha opinião logicamente), antes habitado apenas por “Avatar” e “Monstros vs Alienígenas”. Para quem, assim como eu, assistiu nos cinemas (ou sei lá, possui uma dessas modernosas televisões 3D), sentiu como se estivesse correndo ao lado do pequeno Hugo pelos corredores, sentido a profundidade (lá ele) e vendo todas as curvas. E o que dizer da tomada aérea da cidade de Paris logo no início do filme? Absurdamente linda. E não só os efeitos em terceira dimensão merecem destaque aqui, toda a parte técnica e o visual foram muito bem trabalhadas.

Os cenários e o visual são elementos importantes que auxiliam e muito (quando mal feitos logicamente atrapalham) na parte de ambientação de um filme, mas não servem de muita coisa caso o elenco não esteja ‘afiado’, e desde a parte juvenil, contando ai com Asa Butterfield (“O Menino do Pijama Listrado”) como o personagem principal e sua “paquera” interpretada por Chloe Moretz (“Kick Ass”) até a turma de mais idade, Ben Kingsley (“Ilha do Medo”), Christopher Lee, Jude Law (“Um Beijo Roubado”) e Sacha Baron Cohen (“Brüno”) estão muito bem em seus papéis e entregam atuações dignas de um grande filme.

Sem entrar em maiores detalhes para não estragar a surpresa de quem ainda não o assistiu (devem existir 2 ou 3 pessoas nessa situação a essa altura do campeonato), “A Invenção de Hugo Cabret” é sem dúvidas, uma das grandes homenagens ao ‘fazer’ cinema e também a um grande e visionário cineasta. Em pouco mais de 2 horas de pura magia, num trabalho capaz de encantar tanto crianças quanto adultos, trata-se sem dúvidas de uma obra imperdível para todos aqueles que (assim como este que vos escreve) ainda acreditam que cinema, mais que tudo, é emoção.


A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011/2012 – 126 min)
Aventura, Drama, Fantasia.

Dirigido por Martin Scorsese com roteiro de John Logan adaptando livro de Brian Selznick. Estrelando: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Chloë Moretz, Sacha Baron Cohen, Helen McCrory, Christopher Lee, Michael Stuhlbarg, Emily Mortimer, Jude Law, Richard Griffiths, Frances de la Tour e Ray Winstone.

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