Quando tragédias assustadoras acontecem todos ficamos a questionar quais motivos levaram até aquilo, porque se chegou a tal ponto, qual seria o propósito afinal? Ficamos complacentes com os parentes das vítimas e imaginamos a sua dor, mas será que paramos pra pensar na dor dos parentes mais próximos ou nos pais dos responsáveis por tal tragédia ou simplesmente os culpamos pelo “descuido” na criação destes tipos de indivíduos? Será que é apenas má criação ou existe algo que predetermina as atitudes de um ser, ou seria o meio que faz o indivíduo?

Os questionamentos são inúmeros e este filme de Lynne Ramsay, adaptação do livro escrito por Lionel Scriver (o qual eu não li e, portanto, não posso dizer o quão fiel está), ao contrário do que muita gente possa imaginar antes de o assistir, apenas apresenta uma história que é na verdade uma espécie de “apanhado” de diversos depoimentos e fatos de diferentes tragédias como aquela famosa de Columbine onde dois garotos entraram num colégio e mataram vários amigos antes de se suicidarem.

Numa mistura muito interessante e intensa entre drama, suspense e horror, “Precisamos Conversar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin)”, traz a história de uma mãe que tenta levar a vida e conviver com a dor e toda a sorte de sentimentos antagônicos em relação à responsabilidade que sente pelas ações de seu filho que, desde seu nascimento, viveu uma relação extremamente conturbada com ela.

Faz toda a diferença a forma como a história é contada/apresentada aqui, seguindo uma trajetória não linear e que deixa o expectador experimentar sensações de angústia e tensão à medida que vai descobrindo, aos poucos, como tudo aconteceu. A forma como o roteiro foi construído contribui e muito para todo o clima de suspense e mistério que gira em torno da trama.

Mas nada disso causaria um impacto tão grande (como causou em mim pelo menos) não fossem as atuações incríveis de Tilda Swinton (“O Curioso Caso de Benjamin Button”) e Ezra Muller que fazem respectivamente mãe e filho (na fase adolescente). Enquanto Tilda (incrivelmente ignorada pelo Oscar) está excepcional em seu papel de mãe desesperada e sem saber como lidar com seu filho, Ezra Muller interpreta um adolescente detestável e assustador. É interessante também a forma como a relação dos dois é mostrada, inclusive com cenas sugerindo que apesar das aparentes diferenças eles podem ter muito em comum, mas até do que gostariam de admitir.

Em determinada parte do filme Kevin diz para a mãe que o propósito de tudo aquilo que ele vem fazendo é simplesmente não ter propósito. Para o espectador que estava até aquele instante procurando apontar um culpado para a forma como tudo aquilo veio acontecer (sem maiores detalhes para não acabar com surpresas) é um verdadeiro tapa na cara. E agora, de quem é a culpa? Será do pai um tanto quanto relapso, a mãe que nunca soube lidar com seu filho ou simplesmente o garoto foi um enviado do coisa ruim? E será que existem culpados?


Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011/2012 – 112 min)
Drama, Suspense.

Dirigido por Lynne Ramsay com roteiro de Lynne Ramsay e Rory Kinnear adaptando livro de Lionel Shriver. Estrelando: Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly e Jasper Newell.

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