Pela primeira vez vou me permitir quebrar as regras do blog e fazer uma classificação diferente. Eu darei duas notas, serão duas classificações.  Isso não será rotina, eu diria apenas que o filme a ser discutido merece essa divisão pois tem dois lados paradoxais que precisam ser separados e vistos de forma independente para não prejudicar o produto final. Vocês vão entender…

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Michael Goi é um famoso diretor responsável por séries como My Name Is Earl e The Mentalist que resolveu fazer um filme independente e de baixo orçamento, a respeito de um assunto muito recorrente em sua vida. Devido a sua carreira, Michael passou anos estudando com consultores da polícia, investigadores, policiais e desenvolveu uma amizade com essas pessoas que passaram a frequentar seu círculo de relacionamentos. Uma coisa que o pertubava muito eram as histórias de predadores sexuais que sequestravam crianças e adolescentes e estes tinham um destino tão cruel quanto jamais nenhum filme poderia mostrar. A forma como isso acontecia e principalmente a frequência desses casos fez com que ele se assustasse ao ponto de sentir a necessidade de alertar aos pais dos perigos que seus filhos correm principalmente na internet.

Uma das coisas que me assustou bastante é que o filme diz: Baseados em fatos reais. Engraçado como isso torna qualquer filme mais bizarro. A questão é que em Megan is Missing, Michael utilizou sete casos reais para escrever o roteiro e cada situação apresentada foi retirada de algum desses casos escolhidos. A Amy original tinha apenas nove anos de idade! A narrativa é toda evidenciada por meio de cameras de celular, webcam e camera amadora pois foi assim que Michael via que os adolescentes se comunicavam, durante o período em que fez seu “laboratório” com filhos dos seus amigos, inclusive frequentando festas como as que são exibidas no longa. O filme mostra a história de Megan (14) e Amy (13) que apesar de terem personalidades totalmente opostas são melhores amigas. Megan foi abusada pelo padrasto quando era pequena e sua mãe a culpa até hoje pela prisão dele. Ela vive de forma desregrada, ingere bebidas alcoolicas, usa drogas e frequenta festas onde o sexo acontece de forma livre e violenta. Na outra ponta temos Amy, uma jovem estudiosa, amorosa, com um relacionamento muito próximo dos pais e que aos seus olhos ainda é uma menininha. Ela se sente isolada por se sentir careta, gorda, ser virgem e ter um olhar diferenciado em cima de todas essas liberdades que Megan tem. No final das contas o que Amy gostaria de ter é a beleza da amiga, a liberdade, o espírito selvagem e a auto-confiança da amiga. Enquanto isso, Megan daria tudo pra ter uma família como a de Amy, ser doce e inocente como a amiga é e ela jamais pode ser  nem quando era criança. Isso as torna ainda mais unidas.

O filme foca nas diferenças entre as meninas e em sua amizade verdadeira, tudo isso pra evidenciar a personalidade das duas e seus pontos fracos, o que será fundamental para a segunda metade do filme. Quando Megan conhece Josh na internet, nós – telespectadores adultos- imediatamente percebemos que ali não se encontra um adolescente como ele mesmo diz. A linguagem, o jeito, as pausas, são características de um adulto. Megan que se diz tão experiente e escolada, não percebe. Quando pela primeira vez, um homem a trata de forma cortês, sem dar em cima dela ou demonstrar que está apenas em busca de sexo, aparentando até certa timidez, deixa ela completamente encantada. É nessa hora que entendemos que aquela garota que se acha tão esperta, quando recebe uma demonstração de carinho “sincera” fica totalmente cega e não percebe o mais básico dos erros: Josh nunca ligou a camera. Ele é apenas uma foto no computador, um nome em site de bate-papo para skatistas.

Eu posso dizer que os trinta minutos finais do filme me trouxe uma terrível sensação de impotência. A violência que não é necessariamente exposta mas ao mesmo tempo tão absurda, choca de uma maneira que a muito tempo não vejo e isso não é algo parecido como mostrado em “Um Filme Sérvio”, onde a necessidade de chocar justificou as cenas e jogou o bom senso no lixo. E  Megan is Missing, já conhecemos tão bem aquelas garotas que quando o filme entra no seu ápice, a angústia quase lhe tira a respiração e os minutos finais, quando Amy usa as únicas armas que lhe resta é de partir o coração.

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Quando o filme termina, estamos tão inseridos naquela realidade que não há espaço para análises e questionamentos técnicos mas até chegar neste momento, não tem como fechar os olhos para tantos furos que o roteiro mostra. Acredito que pelo fato do Michael Goi pegar sete casos reais e tentar transformá-los em um único filme deixou muitas brechas e situações onde os comportamentos não foram plausíveis. Tem muitos spoileres a seguir então, para ler, basta selecionar o texto abaixo:

– Entendo que Michael frequentou festas de adolescentes e vivenciou todas as situações mostradas no filme mas vamos com calma não é? Festas onde adolescentes com 13 anos bebem, usam drogas e transam daquele jeito é meio hardcore. Acho que o pessoal com que ele fez laboratório não espelha o cotidiano normal de boa parte dos jovens;

– Inicialmente, Amy não conta a polícia que Megan foi encontrar um rapaz que conheceu na internet. Isso já foi um erro mas procuro entender que ela era uma adolescente de 13 anos e não viu todo o risco que isso englobava. O problema é quando as autoridades ficam cientes que Josh foi o responsável pelo rapto da amiga dela, Amy continua utilizando a internet livremente. Onde estão os pais dessa mocinha?

– Quando Amy vai a público citar o nome de Josh e dar os detalhes que sabia da história, ela continua saindo sozinha, indo a lugares desertos e mais uma vez pergunto: Cadê os pais de Amy que eram tão presentes? Como deixar a menina solta com tudo isso acontecendo na vizinhança?

– Josh a ameaça virtualmente e ela não diz a ninguém. Tudo bem, ameaçar os pais da criança ainda é uma forma muito eficaz de mantê-lo calado e submisso mas isso não quer dizer não ter medo. Pois é isso que Amy aparentava, não ter medo! Ou se você tem uma amiga sequestrada, você é ameaçada e mesmo assim sai por ai sozinha????

– Os mecânismos eletrônicos utilizados para fazer a narrativa do filme deu um toque bem particular ao longa. Os momentos em que as meninas usam celular, webcam, video amador… é interessante. Quando o assassino usa a câmera de Amy é meio sem noção. Tudo bem que precisávamos saber o que aconteceria com elas de alguma forma mas a desculpa de que ele usou a camera, filmou aquilo tudo e depois jogou no lixo é meio… dããã. Será que em algum dos casos reais utilizados como referência, algum dos predadores sexuais foi tão burro assim?

– Quando o filme começa dizendo que foi baseado em fatos reais, achei oportunista. Os créditos mal subiam na tela que eu já estava procurando informações a respeito do caso de Amy e Megan na internet e para minha surpresa, não achei nada. Pesquisando bastante encontrei essas informações sobre a produção do filme e entendi que não foi um caso real e sim varios casos que serviram como recorte para fazer essa história.

Acho que o filme é uma lição para muitas crianças e adolescentes que não entendem o quanto estão expostos aos perigos e por se acharem muito espertos não percebem quando as coisas podem sair do controle. Cabe a todos nós como sociedade, vigiar. Quem sabe de algum caso de abuso e não denuncia, é tão culpado quanto quem o comete pois a omissão é a arma também da impunidade.

Desaparecimento de Megan ( Megan is Missing – 2011)

Drama, Suspense.

Dirigido por Michael Goi. Atuações de Amber Perkins, Rachel Quinn e Dean Waite. Duração: 85 min.

 

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