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Pode parecer estranho mas de Stephen King ficou com um pé atrás após as filmagens de O Iluminado. Ele não gostou nenhum pouco da sua história original ter sido basicamente toda reinventada mesmo que o resultado final tenha sito uma das obras primas do Stanley Kubrick. Foi por isso mesmo que ele só liberou os direitos do seu livro O Cemitério depois de certificar-se que Mary Lambert seguiria exatamente o roteiro original.

O filme nos apresenta a família Creed que acaba de se mudar para uma cidade aparentemente bucólica. Essa imagem é quebrada logo ao chegarem quando são informados pelo amistoso vizinho o Sr. Jud que a área é bastante perigosa para crianças e animais por causa do intenso tráfego de caminhões na estrada em frente a casa. Dr. Luis e Rachel precisam dobrar a atenção com a filha Ellie (uma garotinha perguntadeira) e o pequeno Gage, além do gato Church. Além disso Jud apresenta a família o cemitério de animais ( Pet Sematary – grafia errada de propósito pois o nome foi escrito por crianças) onde muitos garotos e garotas enterraram seus bichinhos de estimação que haviam morrido, na sua maioria, por atropelamento na estrada.

Ainda nesse período de adaptação, Dr. Creed precisa atender no hospital do colégio, um jovem que foi atropelado e infelizmente não sobreviveu. Muito impressionado, ele “sonha” com o fantasma do rapaz – que se chamava Pascow – onde ele lhe mostrava um cemitério de animais que fica atrás da casa dele e deixa muito claro que não deve nem mesmo pisar nas terras além do cemitério. Passado o susto, ele deixa o assunto pra lá e não dá importância. O problema é que durante um feriado, ele fica sozinho em casa com o gato Church enquanto sua família vai passar o dia de ação de graças junto com seus sogros. Nesse tempo o gato morre e o Dr. Creed fica desesperado por causa da dor que a filha vai sentir. Comovido com essa situação, Jud leva o Dr e o animal morto até as terras atrás do cemitério de animais. Um lugar estranho, aparentemente usado em rituais antigos, com uma terra dura como pedra. É nesse local que Jud orienta o Dr. Creed para enterrar o gato e aguardar. Sem entender o porquê disso, ele coloca o bicho lá e vai pra casa. O inexplicável acontece. No dia seguinte o gato Church aparece de volta a casa, sujo de areia e com as marcas que o levaram a morte. Sem acreditar no que via, Dr. Creed percebe que ele não é como antes, sua personalidade doce deu lugar a um gato arisco e agressivo, mas mesmo assim ele fica feliz porque sua filha não vai ter que lidar com a dor de perder seu bichinho.

SPOILER

Quando você acha que o filme está seguindo para um lado, eis que uma tragédia acontece. Durante um dia ensolarado, com a presença de toda a família e do vizinho Jud, o caçula Gage é atropelado por um caminho na estrada. Esta cena é incrivelmente forte, mesmo não mostrando detalhes do atropelamento, ela foi construída de uma forma em que você sabe que algo vai acontecer mas a tensão é trabalhada de um jeito onde acredita-se que no final Gage será salvo, o caminho desvia ou qualquer outra coisa surge para evitar o atropelamento mas isso não acontece. A morte do menino abre um abismo aparentemente intrasponível para a família. Como lidar com tamanha dor. Perder um filho pequeno de maneira tão violenta, tendo assistido a tragédia e no final das contas, sabendo que poderia ter sido evitada. O trauma está ali, a dor está ali, a culpa está ali… a solução também está ali.

Jud tenta tirar a idéia da cabeça do Dr. Creed mas como culpá-lo ou exigir coerência de um homem que acabou de perder o filho? Sem medir as consequências de seus atos ele vai até o lugar onde seu filho está enterrado, viola o túmulo e tira o corpo de lá. Dr. Creed leva o menino morto até o lugar onde o gato voltou a vida e sepulta o filho no mesmo local e vai para casa esperar seu retorno. Gage volta sim, mas não é a doce criança de antes. Um assassino diabólico que coloca todos da família em uma ciranda de dor, morte e ressurreição. Ao matar Jud, Gage morde seu pescoço e o tom assustador toma conta da gente principalmente por causa do jeitinho infantil do menino. Quando ele reencontra a mãe e a mãe reencontra o marido, fecha o ciclo de Pet Sematary.

FIM DOS SPOILER

Não há como negar a força que esse filme de 1989 tem. Eu considero Cemitério Maldito um filme atemporal. Mesmo assistindo hoje você tem todas as emoções que algém teve quando viu naquela mesma época. A história é bem contada, a idéia do filme é boa e até mesmo as emoções são bem trabalhadas. Lidar com a morte não é uma tarefa fácil mesmo sabendo que essa seja a única certeza da vida, quando lidamos com crianças isso é ainda mais duro. A morte de um bichinho de estimação até de um parente próximo, balança qualquer pessoa e O Cemitério Maldito trouxe esse desespero de uma forma bem compreensível. Não sei nota máxima porque algo me incomodou bastante: os atores. O casal da trama é muito fraco, não senti por parte deles o drama suficiente no ápice do filme. Isso prejudicou mas não deixou o filme pior. Veja mais alguns detalhes importantes:

– Miko Hughes (Gage Creed) deu um show de interpretação. O menino de dois anos ofuscou completamente todos os outros no filme;

– O que era aquela irmã da Rachel? A história além de bizarra trouxe uma personagem – Zelda – que me lembrou a garotinha de REC;

– Tá bom, sou chata demais e acho uma loucura morar na beira de uma estrada perigosa como aquela, com duas crianças pequenas e não ter nem mesmo uma cerca protegendo a casa de uma possível escapulida dos pequenos;

– Mesmo antes de morrer, o gato Church não parecia um gato de brinquedo? Um bicho mecânico?

– Por favor, não vamos falar de Cemitério Maldito 2! Aquele filme merece ser esquecido por todos!!!


O Cemitério Maldito (Pet Sematary – 1989) Horror, Terror

Dirigido por Mary Lambert, roteiro de Stephen King com atuação de Dale Midkiff, Fred Gwynne, Denise Crosby, Brad Greenquist, Miko Hughes, Blaze Berdahl.

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