Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)

Muito Bom / Ótimo

Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)

Direção: Fernando Meirelles.
Roteiro: Don McKellar adaptando livro de José Saramago.
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael García Bernal, Sandra Oh, Don McKellar, Maury Chaykin, Yusuke Yseya, Yoshino Kimura.
Ano: 2008.
Gênero: Drama.
Tempo: 120 min.

Sinopse: Uma cegueira epidêmica afeta os habitantes de uma cidade contemporânea e sem nome, levando a sociedade à beira do colapso.

Tive o imenso prazer de conferir ontem (11/09/08) a pré-estréia do tão aguardado Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness) de Fernando Meirelles, adaptação do livro que ganhou prêmio Nobel de José Saramago. Fui a convite do Portal Salada Cultural por indicação do grande ‘brotherRoberto do Me Tire deste Ócio. Ficam aqui registrados os meu agradecimentos.

Adaptações de livros são sempre complicadas, geram sempre insatisfações de algumas (ou muitas) pessoas. Adaptar um livro para o cinema de José Saramago, que tem todo seu jeito peculiar de escrita e narrativa é muito mais difícil sem dúvidas. Meirelles no entanto faz um ótimo trabalho no filme, mesmo sendo ele menos “sujo” do que o livro (em algumas passagens as cenas de deterioração são muito piores). Só que mesmo assim, as cenas são muito fortes e com certeza vai chocar muita gente. A imprensa internacional ficou bastante dividida com o filme, entretando Meirelles ficou muito aliviado e tranquilo quando teve a aprovação da pessoa que mais importava, emocionante.

Uma misteriosa cegueira começa a antingir algumas pessoas. Com medo de que a epidemia se alastre ainda mais, as autoridades resolvem isolar estas pessoas do mundo, confinando-as num espaço. Aos poucos a miséria vai tomando conta do lugar. Todos são obrigados a conviver com pouca comida e com gente que nunca conheceu.

Julianne Moore interpreta – espetacularmente diga-se de passagem – uma mulher que não quer se separar do seu marido (Mark Ruffalo) e mente para as autoridades dizendo que também está cega. Sendo a única pessoa a não ser contagiada pela ‘doença’ ela carrega o ‘fardo’ de ter que cuidar de todos a sua volta. Aos poucos toda a sociedade vai sendo contagiada, o que a leva a um colapso terrível.

O filme não deixa espaço para você parar e analisar tudo a sua volta, ele é direto e cruel. As cenas são muito fortes, apesar de estarem menos agressivas na tela do que no livro, o que de certo modo é positivo. Imaginar e ver na tela a humanidade num colpaso social desta magnitude já é chocante demais, todos os instintos primitivos vindo à tona, luta por sobrevivência, comida, busca por sexo, estupros, falta de higiene física e mental também. É um tapa na cara que nos faz refletir todas as nossas reais prioridades e também nossos preconceitos.

Para quem vai esperando um filme que vá buscar as causas da doença, ou que siga uma certa história de alguns personagens talvez o filme não agrade. Longe disso a mensagem que ele passa e nos mostra é o colapso e deteriorização da humanidade quando perde tudo aquilo que acha ser civilizado. É a busca por tentar manter alguma dignidade, mesmo vivendo em extremos tão primitivos onde está o verdadeiro foco do filme. Talvez por isso tenha dividido tantas pessoas ao redor do mundo.

As cenas são frias e melancólicas, as passagens e alguns momentos são bastante chocantes. É certo que muita gente vai sair meio sem ação da sala do cinema. Saramago, como ‘mostrei’ no início deste texto, se emocionou com o filme. Achei ótimo também. As atuação são muito boas com destaque para Julianne Moore. Por ser tão forte talvez não caia no gosto popular, ainda sim vale muito sua ida ao cinema, você sairá aterrorizado da sala, seja por ter odiado o filme, ou por, assim como eu, ter adorado.

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Author: Marcio Melo

Analista de Sistemas, amante da sétima arte desde os tempos imemoriais e com muito sangue nerd fervilhando em veias hipertensas, fundou o Porra, Man! com o intuito de comentar sobre cinema de forma descomplicada e fácil de entender. Nas horas vagas torce prum time que nunca vence e mata monstros que não existem.

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23 Comments

  1. Não li o livro, mas já li outros de Saramago e o cara é, eu diria, impossível de transpor para qualquer outro meio. Então, eu vejo esse filme mais como inspiração para a história do filme. E tem cara de ser bom. Verei.

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  2. eu acho q nunca vou me perdoar e gostar do filme indeed só pq perdi a figuração por causa do fucking exército. grrrr

    Mas nos ensaios de figuração a gente ficou bastante tempo analizando trechos de cenas e comportamento de cegos. A gente ia pra lá na manhã, pegava vendas e só. [Ser figurante é tão fácil as vezes], daí tinha games do tipo ache seu parceiro ou identificar cheiros, era pra entender como um cego agia (esquece de segurar a cabeça reta e postura, nao importa pra onde tá olhando, etc).

    Ainda não sei se vou assistir, pq vou ficar lembrando do exercito o tempo todo.

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  3. Rodrigo, não tenho dúvidas que dificilmente alguém conseguirá transpor um livro para o cinema sem perder alguma coisa. Faltam algumas coisas é claro e sem dúvidas as emoções ao ler e imaginar tudo são diferentes de se ver na tela.

    Mas se Saramago aprovou imagine? Ele disse para Meirelles no link que coloquei no post pra um vídeo dele no youtube, que ao final do filme sentiu a mesma emoção do que quando terminou de fazer o livro.

    O filme é muito bom.

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  4. Jardel, eu lembro que você tinha comentado isso num post que fiz quando o filme ainda estava sendo produzido. Realmente acredito que você irá se enfurecer, deve ter sido sensacional trabalhar como figurante no filme, as cenas nas cidades vazias (São Paulo e Montividéu) são sensacionais.

    É aquele mesmo ‘choque’ que senti quando vi londres vazia no filme “Extermínio”.

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  5. Márcio, tbm tava lá e foi uma pena não termos nos encontrado pra torcar uma idéia.

    Qto ao filme, tbm saí da sala refletindo sobre essas questões e como seria trágico se desprender de valores q nós acreditamos devido à cegueira inexplicável. E acho q a platéia q tava lá concordou, pois via em alguns momentos o “mexer da poltrona”.

    De qq forma, tbm recomendo o filme, mesmo não sendo digerido por todos.

    Forte abs.

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  6. Caio, tô acompanhando o movimento dos blogs baianos pela lista, em breve compareço a alguma reunião pra conhecer a galera.

    Forte abraço!

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  7. Rapaz…. Eu ainda não assisti ao filme, mas acredito que deve ser MTO bom!
    Não li o livro e também não sei se devo ler antes de assistir ao filme, mas com certeza irei ao cinema o mais rápido possível. =D

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  8. Ae cara dessa vez eu senti inveja de você!! Já assistiu Ensaio sobre a Cegueira, que era um dos filmes mais esperados por mim. Eu teria assistido, mas na minha cidade, Itabuna, os filmes demoram um bom tempo pra chegar.

    Se esse filme conseguir chegar a um décimo da magnitude do livro, ele com certeza deve ser excelente, como você disse. Uma pena que ele sofreu com algumas críticas pelos veículos internacionais, que aparentemente esperavam algo mais ao estilo I am Legend. Quando chegar na minha cidade, eu estarei lá pra assistir. Fernando Meirelles é o cara!!

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  9. Velho, que porra de filme sensacional é esse? Imperdível! É angustiante e belo. A fotografia é, na verdade, uma aula de tão boa. As escolhas de Meireles foram muito acertadas, dos cenários aos atores. Quero ver agora ele fazer um filme melhor que esse.
    Engraçado que eu vi os dois melhores filmes do ano seguidamente. Numa sexta eu vi “Na Natureza Selvagem” e no sábado seguinte “Cegueira”. Foda.
    eheheehhe

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  10. Eu li o livro e tive receio de ver o filme, medo da decepção. Mas ver a aprovação do Saramago, que nunca permitiu que uma obra sua fosse adaptada…. aquilo pra mim bastou.

    Sai do cinema tensa, angustiada… O filme foi melhor do que imaginei. Apesar do livro ser mais cruel, duro.. detalhista, ver na tela toda aquela degradação foi algo surreal.

    Dê-lhe poder a alguém e só assim o conhecerá verdadeiramente… na verdade somos todos cegos, vendados por nossos preconceitos, pré-julgamentos.

    eu indico!

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  11. Vou ter que conferir logo “Na Natureza Selvagem” então né? Coloquei em minha lista de filmes, só que vi que ainda está passando nas salas dos cinemas de arte daqui de Salvador.

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  12. Ensaio Sobre a Cegueira é fantástico! As críticas negativas que vejo por aí na imprensa são sempre comparando ao livro, mas arrisco a fazer um trocadilho besta: pode ser – e é até provável – que o livro seja melhor que o filme. Mas quem diz que esse filme não é tudo isso, está completamente cego.

    O filme, cinematograficamente falando, é muito bem pensado. As tomadas de confusão visual são muito corajosas e por incrível que pareça dão certo. As cenas em que o diretor consegue mostrar – em um meio essencialmente visual que é o cinema – a sensação de cegueira são emocionantes, pela sensibilidade e criatividade.

    Fernando Meireles provou que é um puta diretor. A montagem e a fotografia são excelentes. E a Julianne Moore, como você disse, tá dando um show.

    Tudo isso falo pra reforçar a recomendação acima. Assistam!! 🙂

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  13. Rodrigo, concordo contigo. Valeu pela visita e comentário.

    []´s

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  14. Fala Mister Marcio.

    Assisti essa semana o filme e até agora não sei dizer se gostei ou não. Forte mesmo heim, e vocÊ ainda disse que ele é “menos ‘sujo'” que o livro, fico imaginando como ele é então.

    Foi legal ver São Paulo no filme, mas o efeito “tele-transporte” do Sanatório ficou meio estranho.

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  15. Poizeh Malcom, o filme é meio “diferente” mesmo, nesse sentido de algumas pessoas sairem sem saber se foi bom ou ruim.

    Eu gostei bastante, mas assim que terminou o filme também fiquei meio no “ar”.

    []´s meu velho!

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  16. Olá, Maravilhoso, assisti o filme e recomendo. O filme nos prende o tempo todo e realmente saí do cinema sem ação. É um reconhecimento da nossa cegueira enquanto Ser egoista, não vemos nada além do nosso umbigo. Sempre é tempo de acordar! Só o nosso querido Fernando Meirelles conseque nos tocar profundamente, fazendo nos questionar sobre nossos valores e que existe algo maior o ” Terceiro Incluído”.

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  17. não gostei do filme por não explicar as coisas. Existe a doença mas pq a mulher do médico é a única em todo o mundo que pode enxergar? e nem vem com essa, se eu tenho uma tesoura, enxergo e tão querendo as mulheres e cobrar por comida eu ia matar ou ameaçar todo mundo da outra ala, por favor né. No final só, depois que mataram uma mulher e depois de muito sexo ela mata o líder? ah peraí né, acho que ela até queria aquela orgiazinha…

    sei lá como é o livro, mas achei muito ruim o filme, odeio sair com a história sem pé nem cabeça.

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  18. Caro ‘off’, nem todo filme tem que ser mastigadinho penso eu. Aliás, o filme é que sobre outra visão, não é uma historia com personagens e tal, é um ‘acontecimento’.

    Imagine se todos ficássemos cegos? Como a sociedade iria encarar isso?

    Definitivamente é um filme diferenciado, nem todo mundo gosta realmente de filmes deste tipo.

    Abração

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  19. Assisti ao filme e também saí de lá chocada!. É realmente surreal olhar a imagem de degradação da sociedade. A cegueira é uma metáfora da ausencia de valores internos na sociedade, e que desmascara o aspecto inexorável de irracionalidade (animalesca)sempre presente nos humanos, por mais ditos civilizados. Isto é, na ausencia de controle predomina a selvageria instintiva do “animal”. A prova disso é que em pleno seculo XXI, com toda a tecnologia altamente sofisticada que produzimos, ainda somos os animais mais violentos e virulentos do planeta, e o mais assustador é que não há nada que impeça isso (nem polícia, nem religião, nem educação)!. O homem tortura, estupra e mata o seu semelhante pela ganancia de poder e luxúria. O mundo de hoje onde parentes, padres e professores violentam criancinhas indefesas, mulheres jogam bebes no lixo apos pari-los, empresas envenenam o leite e outros alimentos provocando doenças, para a industria depois vender medicamentos, sem falar na produção de drogas e de pragas biológicas e laboratórios, não é nada muito diferente das cenas mostradas no filme, por isso não gostamos de ver e ficamos tão chocados, não é mesmo?. A humanidade só sobrevive pelo controle do chicote do grande leviatã e para preservar a beleza do arquétipo de civilização, nas partes mais ricas do mundo livre. A verdade é que sou forçada a concordar que “o monstro não suporta olhar o espelho”!

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  20. Orivalda, excelente comentário o seu.

    Recomendo assistir o suspense “O Nevoeiro” que tem um retrato parecido com este, que mostra o quanto nos no fundo ainda somos animais.

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  21. Ainda não tive a oportunidade de ler o livro,
    mas assisti ao filme e o achei pertubador.
    O universo que Meirelles nos apresenta é
    chocante faz qualquer um ,por mais que
    não tenha gostado do filme,pensar de que
    maneira seria se realmente acontece-se tal
    coisa. Somos animais e as vezes esquecemos
    disso.
    Um filme para ser assistido obrigatoriamente.

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